Por Elias Jordão e Márcio Kieller.

O Sindicato dos Bancários e Financiários de Curitiba e região completa seus 88 anos de existência em um momento ímpar da história mundial. A pandemia de Covid-19, o Coronavírus, a maior peste do século XXI, já infectou mais de quatro milhões de pessoas e matou mais de 500 mil em todos os países do mundo; no Brasil, no Paraná e nas cidades de Curitiba e região os números também só aumentam. É neste contexto que o nosso Sindicato chega aos seus 88 anos de existência, lutas e conquistas.


Desafios sempre foram e sempre serão partes da rotina de um Sindicato, sobretudo de um que se propõe a fazer, de fato, a luta política, de representar as trabalhadoras e os trabalhadores. E não foram poucos, nessas oito décadas, os desafios das mais variadas ordens, políticos, econômicos, sociais e, por último, a grande crise sanitária.

Para a categoria bancária, o dia 06 de julho é muito importante, pois é a data do nascimento político da nossa entidade – claro que, como todo o nascimento, decorreu de um período de gestação e organização das pessoas que compreendiam a importância política de se atuar coletivamente. A organização coletiva trás avanços de forma mais rápida e objetiva do que a luta individual. Esses ensinamentos remontam as bases fundadoras do sindicalismo da pós-revolução industrial. E os bancários do Paraná e de Curitiba e região caminharam nesse sentido, e construíram os pilares poucos anos antes da imposição da ditadura varguista do Estado Novo.

Da fundação do Sindicato até os dias atuais, passamos por períodos importantíssimos da história mundial e do Brasil; enfrentamos o fascismo e os fascistas dos anos 1930, capitaneados pelo integralismo de Plínio Salgado; vimos o desenrolar da Segunda Guerra Mundial, que vitimou milhões pelo mundo; vimos a União Nacional dos Estudantes (UNE) nascer e encantar a juventude estudantil; assistimos o Partido Comunista do Brasil (PCB) ser, injustamente, colocado na ilegalidade, sob o argumento de que a preposição “do” antes de Brasil o tornava um dos braços externos dos comunistas soviéticos no País – isso impôs a semi-clandestinidade aos dirigentes sindicais ligados ou filiados ao partido, que sofreram muito para poderem se organizar após a cassação do registro do PCB, em 1947.

Vimos o movimento do “Petróleo é nosso!” ser puxado pelos setores democráticos da sociedade e a ala desenvolvimentista, que resultou na criação da Petrobrás, em 1954. Vimos a UDN não se conformar em perder o poder político para os trabalhistas e arquitetar o golpe de 1964, já a partir de 1961, com o parlamentarismo que tornou Tancredo Neves uma espécie de primeiro ministro, esvaziando o poder do presidente João Goulart. Assim como vimos a volta por cima do trabalhismo, por meio do plebiscito sobre as formas de governo, que devolveu as prerrogativas presidenciais a Jango, mas acabou desembocando no Golpe Civil Militar de 1964, levando nosso País a uma cruel ditadura, que perdurou por 21 anos.

Nestas duas décadas, os dirigentes bancários foram duramente perseguidos. Houve intervenções políticas em muitos sindicatos, inclusive no nosso, que já havia sofrido uma intervenção nos anos 1940 – levando a uma atuação muito mais branda e fora dos propósitos da representação política e socioeconômica, que é o papel de origem das organizações sindicais. Muitos sindicatos se transformaram em associações, englobando em suas atividades ações assistencialistas e esportivas. O que, em um contexto histórico de continuidade de existência e de alternativas de organização, continuaram sendo muito importantes para que as entidades pudessem se reestruturar e voltar a ter uma atuação política.

Ação que começamos a ver novamente com a retomada do movimento sindical organizado a partir do ABC paulista, que desembocou nas grandes greves de trabalhadores no final dos anos 1970, mesmo sob a égide do período mais sangrento e cruel da ditadura militar, que se constituiu a partir do AI-5, em vigor em dezembro de 1968. Na toada dos ventos internacionais, acompanhamos o desenrolar das guerras do Camboja e Vietnã, e a guerrilha do Araguaia aqui no Brasil.

Em 1970, o Brasil conquistava o tricampeonato mundial de futebol. O início daquela década foi duro, mas os ventos de reconstrução da liberdade começaram a soprar no País, no berço da socialdemocracia, terreno das grandes empresas multinacionais instaladas no ACBD paulista. Local que, no final da década de 1970, seria palco das grandes greves de metalúrgicos e também do aparecimento do maior líder popular do Brasil, Luís Inácio da Lula da Silva, um dos responsáveis pela formação do maior partido de trabalhadores do America Latina, o PT, e também da Central Única dos Trabalhadores (CUT), em 1983.

Tudo isso deu outro rumo à organização dos trabalhadores e uma nova cara ao sindicalismo corporativo, que havia sido massacrado pela ditadura civil e militar que tomou conta do Brasil. Os sindicatos e os dirigentes sindicais acompanharam e participaram ativamente dessa guinada na história política brasileira, que rumava no sentido da abertura política e democrática com a exigência de eleições gerais e livres para todos os cargos, inclusive para a presidência, através da histórica campanha “Diretas já!”.

Um movimento que empolgou o País, mas bateu na trave, já que o Congresso, sobre forte influência da antiga linhagem política, atrasou as eleições diretas por mais quatro anos. Mas dessas manifestações sugiram as condições objetivas para a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte em 1986, que, sob o comando do deputado Ulysses Guimarães, entregou uma nova Carta Magna ao Brasil: a Constituição Cidadã de 1988 – que até os dias de hoje ainda carece de regulamentação de diversos artigos, a começar por um que a categoria bancária historicamente cobra, o 192, que versa sobre o Sistema Financeiro Nacional. Entre outras questões que a nova Constituição trazia, estava a proposta de realizar, em 1993, um plebiscito sobre a forma de governo que o Brasil deveria adotar: presidencialismo ou parlamentarismo.

Nesse contexto, o Sindicato lutava por democracia interna, pedindo eleições para acabar com as intervenções que sofrera durante a ditadura militar. Ao mesmo tempo em que o País elegia, em 1989, como presidente – em disputa apertada com Lula – Fernando Collor de Mello, que, enrolado em um mar de corrupção, sofreu impeachment numa linda campanha conduzida pelos partidos democráticos e populares e pelas entidades estudantis UNE e UBES.

Assumiu o seu vice, Itamar Franco, que inaugurou o Plano Real, tendo como seu Ministro da Economia aquele que viria a ser seu sucessor, o presidente sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Este, por sua vez, governou o País por duas gestões desastrosas, entre 1995 e 2002, sobretudo nos quesitos sociais e econômicos, dando mais atenção aos banqueiros e grandes empresários da comunicação do que ao povo.

Em 1993, a chapa que tinha apoio da CUT ganha as eleições do Sindicato e começa um novo ciclo histórico na entidade, que passa a ter uma atuação de sindicato cidadão, compreendendo as bancárias e bancários como seres humanos geograficamente presentes e atuantes em uma comunidade. E, sob essa nova orientação filosófica e política, a entidade acompanha o desenrolar de muitas das passagens históricas.

Durante os governos democráticos e populares, o Sindicato teve uma atuação muito forte, construindo campanhas salariais e minutas de reivindicações que resultaram em conquistas por meio de greves da categoria. Vimos, nesse período, a crise econômica mundial de 2008; enfrentamos muitas campanhas eleitorais, sempre com a perspectiva do sindicato cidadão; fornecemos nossos melhores dirigentes sindicais, homens e mulheres, para concorrem e representarem os bancários e as trabalhadoras e trabalhadores em geral.

Depois da ofensiva neoliberal privatista ter dado errado nas eleições em 2014, com a reeleição da presidenta Dilma Rousseff, em meados de 2016, foi arquitetado um golpe totalmente sem fundamento. Um golpe que, como se disse na época, por um político hoje no ostracismo, foi “com o Supremo, como tudo…” para tirar o PT do poder. Como resultado desse golpe, entra o ilegítimo e parceiro do golpe Michel Temer, que levou o País ao caos, com o enfraquecimento das políticas e programas sociais.

O governo ilegítimo de Temer começa a implementar a lógica de Estado mínimo e aprofundar a retirada de direito, acabando com avanços importantes da CLT de 1943 e aprovando a Reforma Trabalhista. Tudo isso deixou o caminho armado para a Reforma da Previdência, que acabou com a perspectiva da maioria do povo, homens e mulheres, de ter o sagrado direito a uma aposentadoria digna.

O cenário político dava, então, margem para a criação de uma extrema-direita de viés fascista – que, com armações e golpes, levou ao poder, em 2018, uma concepção política baseada nas mentiras e fakenews aliada a medidas de perseguição política à esquerda brasileira, com a prisão injusta e sem provas do ex-presidente Lula. A esquerda denunciou, porém sem ter a atenção dos grandes veículos de comunicação. Mais do que isso, travou uma luta inglória contra as artimanhas de uma operação que, ao invés de passar o Brasil a limpo, quebrou a indústria nacional e entregou uma gama muito grande de nossas riquezas minerais e naturais ao Capital estrangeiro.

O movimento sindical em geral, inclusive o bancário, sempre teve a clareza que estávamos vivendo sob um golpe arquitetado depois de 2016 e que as perseguições eram injustas e descabidas.  E assim tem sido a luta política sindical em tempos de Bolsonaro, um governo de poucos e totalmente impopular para as trabalhadoras e trabalhadores, que tiveram um ano muito ruim nas mais diversas áreas. A começar pela formação e atuação péssima de um quadro de ministros risíveis, cômicos e, em muitos aspectos, trágicos – como a nomeação de Weintraub para o Ministério da Educação.

Inclusive com o juiz que conduziu a operação “Lava jato” – descoberto posteriormente pela “Vaza jato” – abrindo mão de ser juiz para virar Ministro por poucos meses, pois entrou em rota de colisão com o presidente inábil e sem condições políticas de governar que é Bolsonaro. Haja vista o índice de aprovação que tinha e que tem piorado consideravelmente a frente do maior problema de saúde que o mundo e o Brasil enfrentam.

Em meio a essa turbulência política e econômica, surge a crise sanitária, em meados de março deste ano. Mais uma vez, o nosso Sindicato – que é o quinto maior sindicato da categoria no País – se destaca por sua atuação junto ao Comando Nacional dos Bancários, representando sua base com firmeza e determinação, cobrando dos banqueiros medidas protetivas, primeiramente da vida e de todos os direitos: emprego, salário, auxílios e condições de trabalho.

Novamente, ficou evidente a diferença que faz uma categoria ser representada por sindicatos fortes. Enquanto a maioria das categorias estava e está à mercê de governos sustentados pelo Capital e preocupados em atender interesses dos patrões – editando Medidas Provisórias (MP) de interesses dos empresários, que deixam os trabalhadores expostos e em condições precárias, com retiradas de direitos ou até mesmo sem emprego no momento que mais precisam –, os bancários provam e comprovam a importância do nosso Sindicato na negociação nacional.

Conseguimos, já na primeira semana da pandemia mundial, colocar em teletrabalho metade da nossa categoria em nível nacional, com todos os seus direitos garantidos. O nosso Sindicato não ficou somente na negociação, além de cobrar semanalmente dos bancos protocolos de cuidados, cobrou também do estado, do município e do poder público medidas que colocassem em segurança a vida dos trabalhadores bancários e dos clientes, monitorando e fiscalizando diariamente o cumprimento do negociado, dos decretos e das decisões do poder público.

Por mais imperceptível que seja para o trabalhador, temos convicção de que a nossa intervenção tem feito toda a diferença na vida das bancárias e bancários e de suas famílias. E a maioria da categoria percebe isso, aposta e confia no Sindicato. Também não nos esquecemos dos demais trabalhadores, tanto que entendemos a necessidade dos bancos públicos atenderem a parcela necessitada da sociedade de receber o auxilio emergencial e também os programas sociais, sempre cobrando segurança, condições de trabalho e de proteção à saúde e à vida.

Nada disso acontece ou se conquista por acaso; se, por um lado, a jovialidade traz pujança e vitalidade nas ações, por outro, é a vivencia de décadas de conjunturas adversas que traz a experiência. E é a experiência que nos conduz a caminhos sólidos e seguros. Experiência é o que não falta ao nosso Sindicato, que sabe que, para defender os interesses da nossa categoria, não se pode andar sozinho; e, por isso, andamos em unidade nacional, junto com a nossa Central, a CUT; com a nossa Federação, a Fetec-CUT-PR; e com a nossa Confederação, a Contraf-CUT. E, por isso, somos fortes e temos capacidade de resistir às adversidades.

É neste contexto, após ter passado por diversas conjunturas, diversos governos, diversas reformas, com desafios diários, que o Sindicato dos Bancários e Financiários de Curitiba e região, com uma direção recém eleita e compromissada com a classe trabalhadora, completa seus 88 anos, já mirando a proximidade dos 90 anos, mas com a mesma determinação desde a sua fundação: resistir e defender os interesses da nossa categoria e de todos os trabalhadores! Vida longa ao Sindicato dos Bancários e Financiários de Curitiba e região.

ELIAS JORDÃO é direto executivo da Contraf-CUT e ex-presidente do Sindicato nas gestões 2014/2017 e 2017/2020.

MÁRCIO KIELLER é presidente da CUT-PR e mestre em Sociologia Política pela UFPR.

Fonte: SEEB Curitiba

Foto: Contraf- Cut

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