FÁBIO GUIBU
da Agência Folha, em Goiania
Lavradores ligados ao MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) desviaram ontem quatro caminhões de uma rodovia estadual em Pernambuco, tomaram quatro pessoas como reféns e saquearam pelo menos um dos veículos, que transportava biscoito e macarrão.
No mesmo dia, o Planalto anunciou que a reunião do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com membros do MST, antes agendada para a próxima segunda-feira, foi antecipada para hoje.
A ação do MST, presenciada pela Agência Folha, ocorreu na PE-62, em Goiana (80 km de Recife). Tiros foram disparados na operação que permitiu o resgate dos reféns e a recuperação dos veículos. Ninguém se feriu. Um sem-terra foi preso. Os lavradores se dispersaram e esconderam a maior parte dos alimentos no mato antes de voltarem ao acampamento Mussumbu, a 3 km da rodovia. A carga saqueada não havia sido recuperada até o fim da tarde.
Cerca de 90 sem-terra de três acampamentos participaram da ação. Eles dizem que o governo não entregou em junho 1.500 cestas básicas do programa Fome Zero, que teriam sido prometidas às famílias acampadas.
Armados com foices e facões, os lavradores atacaram cinco caminhões em menos de duas horas. Só um deles conseguiu furar o bloqueio, passando por cima dos troncos jogados na pista. Os outros quatro foram tomados.
Exibindo os facões, eles ordenaram aos motoristas que desviassem os veículos para uma estrada vicinal, onde foram vistoriados.
César Alberto Souza Silva, 45, e Misael Rodrigues de Araújo, 19, que transportavam peças para bicicleta e cremes de cabelo, permaneceram em um canavial, vigiados por lavradores com facões, até serem libertados pela polícia.
Silva afirmou que um maço de cheques e R$ 2.100 desapareceram. Disse também que 30% das peças de bicicleta que levava sumiram. O MST nega ser responsável pelos desaparecimentos.
Tiros e correria
A Polícia Militar encontrou o cativeiro no momento em que os trabalhadores rurais saqueavam um caminhão carregado com 9.675 kg de macarrão e 272 kg de biscoito. Cerca de 40% da carga foi levada, segundo o motorista José Antonio dos Santos, 48.
Um outro veículo também estava parado no local e seria descarregado. Os policiais intervieram e impediram a ação.
Tiros foram disparados, e houve correria. O lavrador João Pereira da Silva, 66, foi preso, algemado e conduzido à delegacia da Polícia Civil de Goiana, onde foi indiciado sob acusação de roubo qualificado. Pena prevista: de quatro a dez anos de reclusão.
O acusado negou participação no crime. Disse que saiu do acampamento para cortar lenha e que encontrou os saqueadores ao passar pelo canavial.
Macarronada
No acampamento Mussumbu, de 2.800 ha, os sem-terra comemoraram preparando macarronada para o almoço e distribuindo biscoitos .
“Enquanto o governo federal não fizer a reforma agrária, não colaborar com a gente, vamos trancar as BRs para não passar fome”, disse a líder do MST na região, Luíza Ferreira da Silva, 41.
Ela participou da elaboração do plano para o saque e ajudou a compor o grupo de saqueadores.
A idéia do saque foi aprovada na madrugada de ontem, em assembléia. A reportagem assistiu à reunião. O grupo foi dividido em três: o primeiro, com 13 pessoas, foi encarregado de vigiar a rodovia e interditar as pistas com dois troncos cortados e deixados no acostamento no dia anterior.
A segunda equipe, com cerca de dez pessoas, ficou escondida no canavial. Sua missão era atacar de surpresa os caminhões parados, invadindo as cabines. O terceiro grupo foi responsável pela guarda dos reféns e dos caminhões.
Outro grupo, também ligado ao MST, saqueou um caminhão de mantimentos ontem em Custódio (357 km de Recife). Segundo os sem-terra, cerca de duas toneladas de queijo, salsicha e presunto foram roubadas.
Os produtos foram distribuídos entre os 30 acampamentos do MST localizados entre os municípios de Custódia e Arcoverde. Ainda de acordo com um líder do movimento, o caminhão foi parado e o motorista não reagiu.
Um grupo de 500 pessoas ligadas ao MST bloqueou ontem a BR-232, que liga Recife ao agreste de Pernambuco, no trecho entre Caruaru (134 quilômetros de Recife) e São Caitano (157 km da capital pernambucana). O grupo reivindicava a entrega de 2.000 cestas básicas para as 2.000 famílias cadastradas pelo MST no PE.
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Por Mhais• 2 de julho de 2003• 09:19• Sem categoria
MST FAZ SAQUES, E LULA ANTECIPA REUNIÃO
FÁBIO GUIBU
da Agência Folha, em Goiania
Lavradores ligados ao MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) desviaram ontem quatro caminhões de uma rodovia estadual em Pernambuco, tomaram quatro pessoas como reféns e saquearam pelo menos um dos veículos, que transportava biscoito e macarrão.
No mesmo dia, o Planalto anunciou que a reunião do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com membros do MST, antes agendada para a próxima segunda-feira, foi antecipada para hoje.
A ação do MST, presenciada pela Agência Folha, ocorreu na PE-62, em Goiana (80 km de Recife). Tiros foram disparados na operação que permitiu o resgate dos reféns e a recuperação dos veículos. Ninguém se feriu. Um sem-terra foi preso. Os lavradores se dispersaram e esconderam a maior parte dos alimentos no mato antes de voltarem ao acampamento Mussumbu, a 3 km da rodovia. A carga saqueada não havia sido recuperada até o fim da tarde.
Cerca de 90 sem-terra de três acampamentos participaram da ação. Eles dizem que o governo não entregou em junho 1.500 cestas básicas do programa Fome Zero, que teriam sido prometidas às famílias acampadas.
Armados com foices e facões, os lavradores atacaram cinco caminhões em menos de duas horas. Só um deles conseguiu furar o bloqueio, passando por cima dos troncos jogados na pista. Os outros quatro foram tomados.
Exibindo os facões, eles ordenaram aos motoristas que desviassem os veículos para uma estrada vicinal, onde foram vistoriados.
César Alberto Souza Silva, 45, e Misael Rodrigues de Araújo, 19, que transportavam peças para bicicleta e cremes de cabelo, permaneceram em um canavial, vigiados por lavradores com facões, até serem libertados pela polícia.
Silva afirmou que um maço de cheques e R$ 2.100 desapareceram. Disse também que 30% das peças de bicicleta que levava sumiram. O MST nega ser responsável pelos desaparecimentos.
Tiros e correria
A Polícia Militar encontrou o cativeiro no momento em que os trabalhadores rurais saqueavam um caminhão carregado com 9.675 kg de macarrão e 272 kg de biscoito. Cerca de 40% da carga foi levada, segundo o motorista José Antonio dos Santos, 48.
Um outro veículo também estava parado no local e seria descarregado. Os policiais intervieram e impediram a ação.
Tiros foram disparados, e houve correria. O lavrador João Pereira da Silva, 66, foi preso, algemado e conduzido à delegacia da Polícia Civil de Goiana, onde foi indiciado sob acusação de roubo qualificado. Pena prevista: de quatro a dez anos de reclusão.
O acusado negou participação no crime. Disse que saiu do acampamento para cortar lenha e que encontrou os saqueadores ao passar pelo canavial.
Macarronada
No acampamento Mussumbu, de 2.800 ha, os sem-terra comemoraram preparando macarronada para o almoço e distribuindo biscoitos .
“Enquanto o governo federal não fizer a reforma agrária, não colaborar com a gente, vamos trancar as BRs para não passar fome”, disse a líder do MST na região, Luíza Ferreira da Silva, 41.
Ela participou da elaboração do plano para o saque e ajudou a compor o grupo de saqueadores.
A idéia do saque foi aprovada na madrugada de ontem, em assembléia. A reportagem assistiu à reunião. O grupo foi dividido em três: o primeiro, com 13 pessoas, foi encarregado de vigiar a rodovia e interditar as pistas com dois troncos cortados e deixados no acostamento no dia anterior.
A segunda equipe, com cerca de dez pessoas, ficou escondida no canavial. Sua missão era atacar de surpresa os caminhões parados, invadindo as cabines. O terceiro grupo foi responsável pela guarda dos reféns e dos caminhões.
Outro grupo, também ligado ao MST, saqueou um caminhão de mantimentos ontem em Custódio (357 km de Recife). Segundo os sem-terra, cerca de duas toneladas de queijo, salsicha e presunto foram roubadas.
Os produtos foram distribuídos entre os 30 acampamentos do MST localizados entre os municípios de Custódia e Arcoverde. Ainda de acordo com um líder do movimento, o caminhão foi parado e o motorista não reagiu.
Um grupo de 500 pessoas ligadas ao MST bloqueou ontem a BR-232, que liga Recife ao agreste de Pernambuco, no trecho entre Caruaru (134 quilômetros de Recife) e São Caitano (157 km da capital pernambucana). O grupo reivindicava a entrega de 2.000 cestas básicas para as 2.000 famílias cadastradas pelo MST no PE.
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