Artigo – Gilberto Dimenstein: O câncer que ataca o PT
01/09/2003
Por mais trágico que seja, a incompetência na área da Saúde tem pelo menos uma vantagem: porque gera morte ou doenças, rapidamente é percebida. Portanto, é tenebrosamente didática e o impacto é imediato.
O impacto das denúncias contra o Instituto do Câncer, vítima do tumor do clientelismo político, tem esse efeito didático –as pessoas foram afetadas, correndo o risco de perder a vida pelas mazelas.
Seria terrível, mas pedagogicamente produtivo, se toda e qualquer cretinice pública, gerada pela omissão, roubalheira e descaso fosse percebida com a mesma urgência de alguém ameaçado de morrer pelo erro médico.
Se as asneiras que se fizeram em educação, por exemplo, com seus crônicos desperdícios, significassem, além de repetências, crianças fisicamente doentes, a reação seria ainda maior. Se os desperdícios com incentivos fiscais e o abuso com publicidade provocassem epidemias, governos cairiam.
O que o PT está fazendo agora, nesse loteamento de cargos –um câncer da administração pública– é colocar a fidelidade partidária acima da competência. Coisa que todos os demais governos anteriores, sem exceção para o PSDB, de Fernando Henrique Cardoso, fizeram e fazem nos escalões municipal, estadual e federal, mas que o PT jurou combater. E está conseguindo, pasme-se, piorar o que parecia difícil de piorar.
Se cada entidade fosse um Instituto de Câncer, onde os erros são visíveis tão tragicamente, a raiva do contribuinte já teria atingido diretamente a imagem no PT, no geral, de Lula, em particular.
Gilberto Dimenstein é colunista e membro do Conselho Editorial da Folha. Escreve para a Folha Online às terças
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