Para o ministro da Fazenda, os índices negativos de inflação divulgados recentemente abrem espaço para a redução da Selic. Analistas acreditam que a taxa deve cair até dois pontos percentuais ainda este mês
Vicente Nunes
Da equipe do Correio
Por mais que faça questão de ressaltar a independência do Comitê de Política Monetária (Copom), na condução da política de juros, o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, já dá como certa uma queda mais acentuada na taxa básica da economia (Selic) neste mês. A confiança do ministro está baseada nos índices mais recentes de inflação, todos apontando forte retração nos preços, especialmente nos grupos alimentação, combustíveis e transporte. Foi o que se viu ontem nas taxas divulgadas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Na primeira prévia do Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M), houve deflação de 0,17%. A informação mais importante captada pelo IGP-M foi, porém, o resultado negativo do Índice de Preços ao Consumidor (IPC), de 0,37%, mostrando que, finalmente, o repasse da queda nas cotações do dólar não está mais restrita à indústria. Já se reflete nas prateleiras dos supermercados. Na primeira prévia do mês passado, o IPC — que representa 30% do IGP-M total — havia registrado alta de 0,16%. Diante desse resultado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou: ‘‘O bicho-papão da inflação está controlado’’.
A FGV informou ainda que o Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S) apresentou deflação de 0,14%. Como o IPC-S segue a metodologia do Índice de Preços do Consumidor Amplo (IPCA), que serve de parâmetro para as metas de inflação do governo, as apostas são de que também esse indicador esteja negativo. O IPCA de junho será divulgado hoje pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As projeções indicam queda de 0,2%.
No Distrito Federal, o Conselho de Desenvolvimento Econômico também reforçará hoje deflação entre 0,1% e 0,2% para o Índice de Custo de Vida (ICV) da região. Mas, na opinião de Eurípedes Regina, economista do Conselho, o recuo de preços não deve ser sentido imediatamente pelos consumidores. ‘‘É que os preços subiram demais no ano passado e no início de 2003. O que estamos vendo agora é uma correção lenta. A renda dos trabalhadores não conseguiu acompanhar a velocidade das remarcações’’, explicou. ‘‘Mas já estamos num bom caminho.’’
Corte de dois pontos
No mercado, as estimativas são de que a Selic — atualmente, em 26% ao ano — caia até dois pontos percentuais na próxima reunião do Copom, marcada para os dias 22 e 23 deste mês. O ministro Palocci não quis falar em números. Mas, logo depois da reunião com os líderes da base aliada do governo no Congresso, destacou que o efeito mais importante da decisão do Copom, no mês passado, não foi a redução dos juros em 0,5 pontos percentual. ‘‘O mais importante foi que, há 11 meses, as taxas estavam em uma curva ascendente e, depois da decisão do Banco Central, essa curva se inverteu e, ainda assim, as expectativas de inflação continuaram caindo’’, disse.
Palocci também destacou que, ao se avaliar a expectativa de novo corte na Selic, é importante perceber que as projeções dos analistas consultados pelo BC apontam para índices de inflação nos próximos 12 meses e para 2004 abaixo das estimativas do governo. ‘‘Não vou comentar decisões do Copom, mas as tendências estão claramente estabelecidas. Por isso podemos ter agora uma pauta de crescimento’’, afirmou o ministro, ressaltando que, caso a curva de inflação tivesse reagido para cima depois da redução dos juros, ele teria ‘‘péssimas notícias para dar’’.
Na avaliação do ministro é preciso, no entanto, reforçar os dispositivos que vão assegurar o crescimento econômico sustentado. Para isso, emendou, será necessário superar os gargalos existentes no país. Esses entraves estão no saneamento básico, na oferta de energia, no crédito e nos juros de longo prazo. ‘‘Nosso objetivo é olhar para os setores mais frágeis da economia, pois é olhando para o desenvolvimento social que o Brasil conseguirá a estabilidade de longo prazo na economia’’, frisou.
Durante a assinatura de um contrato com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para a modernização do Tribunal de Contas da União (TCU), o ministro da Fazenda destacou que ‘‘não há mágicas’’ para a construção de um país estável. Mas, sim, a necessidade de muito trabalho. ‘‘O segredo para a conquista de uma estabilidade social, econômica e institucional é que não há segredo’’, disse. No entender de Palocci, um país só se constrói com planejamento ordenado, instituições fortes e decisões firmes.
‘‘O Brasil tem problemas de distribuição de renda, orçamentários, fiscais, que precisam ser equacionados ao longo do tempo. Impossíveis de serem solucionados em dias e mesmo em meses’’, assinalou.
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Por Mhais• 9 de julho de 2003• 15:44• Sem categoria
PALOCCI AFIRMA QUE JUROS VÃO CAIR
Para o ministro da Fazenda, os índices negativos de inflação divulgados recentemente abrem espaço para a redução da Selic. Analistas acreditam que a taxa deve cair até dois pontos percentuais ainda este mês
Vicente Nunes
Da equipe do Correio
Por mais que faça questão de ressaltar a independência do Comitê de Política Monetária (Copom), na condução da política de juros, o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, já dá como certa uma queda mais acentuada na taxa básica da economia (Selic) neste mês. A confiança do ministro está baseada nos índices mais recentes de inflação, todos apontando forte retração nos preços, especialmente nos grupos alimentação, combustíveis e transporte. Foi o que se viu ontem nas taxas divulgadas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Na primeira prévia do Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M), houve deflação de 0,17%. A informação mais importante captada pelo IGP-M foi, porém, o resultado negativo do Índice de Preços ao Consumidor (IPC), de 0,37%, mostrando que, finalmente, o repasse da queda nas cotações do dólar não está mais restrita à indústria. Já se reflete nas prateleiras dos supermercados. Na primeira prévia do mês passado, o IPC — que representa 30% do IGP-M total — havia registrado alta de 0,16%. Diante desse resultado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou: ‘‘O bicho-papão da inflação está controlado’’.
A FGV informou ainda que o Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S) apresentou deflação de 0,14%. Como o IPC-S segue a metodologia do Índice de Preços do Consumidor Amplo (IPCA), que serve de parâmetro para as metas de inflação do governo, as apostas são de que também esse indicador esteja negativo. O IPCA de junho será divulgado hoje pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As projeções indicam queda de 0,2%.
No Distrito Federal, o Conselho de Desenvolvimento Econômico também reforçará hoje deflação entre 0,1% e 0,2% para o Índice de Custo de Vida (ICV) da região. Mas, na opinião de Eurípedes Regina, economista do Conselho, o recuo de preços não deve ser sentido imediatamente pelos consumidores. ‘‘É que os preços subiram demais no ano passado e no início de 2003. O que estamos vendo agora é uma correção lenta. A renda dos trabalhadores não conseguiu acompanhar a velocidade das remarcações’’, explicou. ‘‘Mas já estamos num bom caminho.’’
Corte de dois pontos
No mercado, as estimativas são de que a Selic — atualmente, em 26% ao ano — caia até dois pontos percentuais na próxima reunião do Copom, marcada para os dias 22 e 23 deste mês. O ministro Palocci não quis falar em números. Mas, logo depois da reunião com os líderes da base aliada do governo no Congresso, destacou que o efeito mais importante da decisão do Copom, no mês passado, não foi a redução dos juros em 0,5 pontos percentual. ‘‘O mais importante foi que, há 11 meses, as taxas estavam em uma curva ascendente e, depois da decisão do Banco Central, essa curva se inverteu e, ainda assim, as expectativas de inflação continuaram caindo’’, disse.
Palocci também destacou que, ao se avaliar a expectativa de novo corte na Selic, é importante perceber que as projeções dos analistas consultados pelo BC apontam para índices de inflação nos próximos 12 meses e para 2004 abaixo das estimativas do governo. ‘‘Não vou comentar decisões do Copom, mas as tendências estão claramente estabelecidas. Por isso podemos ter agora uma pauta de crescimento’’, afirmou o ministro, ressaltando que, caso a curva de inflação tivesse reagido para cima depois da redução dos juros, ele teria ‘‘péssimas notícias para dar’’.
Na avaliação do ministro é preciso, no entanto, reforçar os dispositivos que vão assegurar o crescimento econômico sustentado. Para isso, emendou, será necessário superar os gargalos existentes no país. Esses entraves estão no saneamento básico, na oferta de energia, no crédito e nos juros de longo prazo. ‘‘Nosso objetivo é olhar para os setores mais frágeis da economia, pois é olhando para o desenvolvimento social que o Brasil conseguirá a estabilidade de longo prazo na economia’’, frisou.
Durante a assinatura de um contrato com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para a modernização do Tribunal de Contas da União (TCU), o ministro da Fazenda destacou que ‘‘não há mágicas’’ para a construção de um país estável. Mas, sim, a necessidade de muito trabalho. ‘‘O segredo para a conquista de uma estabilidade social, econômica e institucional é que não há segredo’’, disse. No entender de Palocci, um país só se constrói com planejamento ordenado, instituições fortes e decisões firmes.
‘‘O Brasil tem problemas de distribuição de renda, orçamentários, fiscais, que precisam ser equacionados ao longo do tempo. Impossíveis de serem solucionados em dias e mesmo em meses’’, assinalou.
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