Entre janeiro e outubro deste ano, o dólar “desvalorizou-se” 37% em relação ao real – o que, entre outras coisas, significou o encarecimento dos produtos brasileiros em relação aos estrangeiros. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, as exportações para os EUA caíram, nesse período, 45,1% (enquanto o conjunto das exportações caiu 24,6%) em relação ao mesmo período do ano passado. Quanto às importações, que levaram o saldo comercial de outubro ao pior resultado desde o déficit de janeiro, as vindas dos EUA (US$ 16,8 bilhões) ocupam com folga o primeiro posto; as da China ficaram US$ 4 bilhões atrás e, mais distante ainda, as da Alemanha (US$ 8 bilhões) e Japão (US$ 4,6 bilhões).
Como nota o economista Yoshiaki Nakano, essa desvalorização do dólar não é – como, por exemplo, prega o sr. Meirelles – um fenômeno espontâneo, ou, muito menos, determinado pelo “mercado”:
“A verdade é que os EUA desencadearam uma guerra cambial dissimulada com sua política monetária escandalosa de juro zero e de emissão de dólares, inundando as economias emergentes, adquirindo ativos, inflando as Bolsas e apreciando suas moedas” (Yoshiaki Nakano, “A guerra cambial e o IOF”, FSP 1º/11/2009).
Ou seja, é uma política dos EUA, hostil aos outros países, que leva à “apreciação” das demais moedas em relação ao dólar. O sr. Nakano não pode ser acusado de radical. Entre as funções públicas que exerceu, está a de secretário da Fazenda de SP durante seis anos de um governo tucano (1995-2001). Além disso, é editor da revista de economia do Banco Mundial. No entanto, o sr. Nakano é um homem inteligente, que sabe reconhecer uma guerra quando a vê. Diz ele:
“Essa emissão de dólares, sem nenhum lastro, nos EUA chegou a triplicar seu estoque logo depois da crise financeira e, neste ano, está em média mais de 100% maior do que no período pré-crise. A consequência óbvia é a depreciação do dólar, mas essa política monetária não tem efeito sobre o setor real da economia americana, pois não há demanda de crédito porque foi o superendividamento que gerou a crise financeira e o consumidor americano iniciou um longo processo de desalavancagem. Do lado da oferta de crédito, os bancos estão mais cautelosos diante do aumento do calote e da incerteza e acumulam reservas excedentes e ociosas de quase US$ 1 trilhão. Assim, a redução do juro para zero é um subsídio para o sistema financeiro americano que causou a desastrosa crise financeira global e tornou-se na realidade insolvente” (grifos nossos).
Essas poucas linhas destroem toneladas de conversa fiada. A invasão de capital especulativo que o Brasil vem sofrendo, que causa a “apreciação” do real em relação ao dólar, é uma consequência direta da política monetária dos EUA – em primeiro lugar da emissão desarvorada de dólares depois da explosão do Lehman Brothers, em setembro do ano passado.
Nos primeiros seis meses deste ano, havia entrado no país apenas US$ 1,533 bilhão de capital meramente especulativo. Em julho, houve um salto: em um mês entraram US$ 7,517 bilhões; em agosto, mais US$ 6,079 bilhões; em setembro, mais US$ 6,835 bilhões. Em três meses, entrou mais capital parasitário do que em todo o ano de 2008 – o que entrou em julho, agosto e setembro é 18 vezes o que entrou no ano passado. Como diz o sr. Nakano:
“É uma escandalosa política, na qual os EUA estão tentando fazer o resto do mundo pagar a conta da crise e exportando desemprego. A taxa de juros do Fed não precisava ter sido reduzida a zero, pois, nas atuais circunstâncias de crise financeira, o instrumento adequado para evitar depressão e deflação é a política fiscal. Isso é uma imensa transferência de riqueza do resto do mundo para os bancos norte-americanos recomporem seus balanços”.
Em suma, insolventes, os bancos americanos, com a taxa básica de juros em zero ou abaixo de zero, não têm que pagar nada ou quase nada a quem teve a infelicidade de adquirir os seus papéis – por exemplo, aos fundos de aposentadoria (em um país sem previdência pública) ou aos milhões de pequenos aplicadores, para não falar de bancos menores. E nem aos otários de fora dos EUA que compraram esses papéis, inclusive bancos como o francês BNP Paribas.
Sem pagar a estes, porém, os bancos americanos podem emprestar a especuladores a taxas próximas de zero – ou eles mesmos usarem suas “reservas excedentes e ociosas” para especularem em países onde a taxa de juros está consideravelmente mais alta, como o Brasil, transformado, graças aos juros do sr. Meirelles, como diria o professor Delfim Netto, no peru com farofa da ganância internacional. Resumindo, escreve Nakano:
“A rigor, quando o Fed [o banco central dos EUA] emite dólar, que chega como uma enxurrada ao Brasil e aprecia o real, são os exportadores brasileiros que têm suas receitas reduzidas e que estão transferindo recursos para os bancos e especuladores americanos. Os bancos americanos, sentindo que o Fed os socorrerá se houver nova crise, voltaram rapidamente a captar recursos a custo próximo a zero e a especular nas Bolsas de emergentes, criando novas bolhas” (grifo nosso).
Em recente relatório, o Deutsche Bank comemorou a “ressurreição” do “carry trade”, operação que consiste, precisamente, em tomar dinheiro emprestado nos países em que os juros estão baixos e aplicá-lo onde estão mais altos (no caso do Brasil em relação aos EUA, imensamente mais altos).
Mas, Nakano observa que nem todo mundo aceita ser vítima da guerra cambial norte-americana:
“A China, que sabe defender seus interesses estratégicos, pegou carona, alinhando-se com os EUA, interrompendo, com a crise, a sua política cambial de apreciação gradual do yuan, fixando a taxa cambial ao dólar. Portanto, quando o dólar se deprecia ante as demais moedas, o yuan também se depreciará”. E ele anota a reação do festejado Paul Krugman, que “critica a ‘escandalosa política cambial chinesa’ (….). Segundo ele, o ‘mau comportamento da China constitui uma crescente ameaça para a economia mundial’, e ‘a verdade nua e crua’ é que ‘a China está roubando o emprego de outros países’”.
Pela lógica de Krugman, isso somente deveria permitido aos Estados Unidos… Que os outros países se defendam é “uma ameaça” – embora não propriamente à “economia mundial”. Se os outros países se defenderem nesta guerra, como é que os monopólios americanos vão sair da crise?
Porém, numa guerra, ou o país se defende ou é devastado e ocupado. A China não é o único a se defender. A sobrevalorização do real foi de 37% “entre 2 de janeiro e 22 de outubro deste ano”, mas “a taxa de valorização média de uma ampla cesta de moedas em relação ao dólar foi de 6%” (cf., Delfim Netto, Carta Capital, 30/10/2009).
Como conclui Nakano:
“É essa guerra cambial e essa transferência de riqueza que o governo decidiu enfrentar tributando com 2% de IOF a entrada excessiva de capitais. Mas a guerra cambial está apenas começando e, com o vigor do nosso mercado doméstico, poucos perceberam – a não ser a indústria de manufaturados que exporta ou compete com as importações – que estão roubando empregos dos brasileiros”.
Por CARLOS LOPES.
NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.horadopovo.com.br.