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Fomos às últimas conseqüências, reviramos nossas vidas, mas somos vitoriosos

“Fomos às últimas conseqüências, reviramos nossas vidas, mas somos vitoriosos“

O ex-ministro José Dirceu era estudante de Direito em 1968 e participou ativamente das manifestações estudantis à época. Mas, até chegar no nível de organização que permitiu aos estudantes o enfrentamento contra a ditadura militar, foi necessária muita articulação entre os jovens de todo o país. “Meu maior sonho era entrar na faculdade e, quando consegui, vi aquele cemitério, tudo vazio. Foi o maior choque da minha vida. Essa sensação me fez entrar na militância política”, conta.

Dirceu também ressalta a importância dos movimentos daquele ano na mudança de comportamento da sociedade. “Foi um período de criatividade intensa que trouxe ótimos frutos para as gerações atuais. Graças aos questionamentos que fizemos lá, hoje vivemos uma liberdade incrível. Hoje, há outras questões, mas a hipocrisia em relação à família caiu por terra.” Confira abaixo a entrevista completa, concedida por e-mail.

Fórum – Como o senhor avalia a importância das manifestações estudantis de 1968, dos quais o senhor fez parte?

José Dirceu – Aqui, o movimento estudantil teve uma importância muito maior do que em outros países e foi graças ao Movimento Estudantil que a nação começou a se levantar contra a ditadura. Foi o primeiro grande movimento de massas, ao qual foram se agregando os outros movimentos, como os dos operários, dos sindicalistas, os artistas e intelectuais, os parlamentares, a oposição institucionalizada, enfim, todos os segmentos contrários à repressão. Comecei a militância em 1965, quando entrei no curso de Direito da PUC e fui presidente da União Estadual dos Estudantes (UEE), da qual sou presidente de honra, inclusive. Provavelmente chegaria à presidência da UNE, mas fui preso ao lado de centenas de estudantes lá em Ibiúna, quando realizamos, clandestinamente, o 30º congresso da entidade.

Fórum – A organização das manifestações aqui tinha inspiração nos movimentos que ocorreram em Paris?

José Dirceu – Olha, esse agito parisiense de 1968 teve reflexos em todos os cantos do mundo, mas aqui havia peculiaridades próprias porque vivíamos numa ditadura. A repressão aos sindicatos era mais violenta. Fora o MDB, único partido de oposição “permitido”, foram os estudantes que orientaram a grande reação. O Movimento Estudantil começou com bandeiras próprias, buscando ensino superior gratuito e de qualidade para o jovem brasileiro e, lógico, mais liberdade e menos autoritarismo. Depois, a repressão crescente foi um fator a mais para que o movimento conquistasse as ruas. Essa militância mais política legitimou o movimento como uma reação de massa àquela situação terrível. Aqui, o Movimento Estudantil foi o protagonista na luta contra a ditadura e o semeador da democracia.

Fórum – Como o senhor vê o legado destes movimentos para os dias de hoje?

José Dirceu – Tenho orgulho imenso de ter vivido esse período, de fazer
parte dessa história. A liberdade e a democracia foram as maiores conquistas, sem dúvida. Por elas é que sempre lutamos e fomos até as últimas conseqüências, à frente de manifestações e, depois, correndo os riscos da luta armada, da clandestinidade, das prisões, torturas e outras formas de violência.

Paralelamente, os movimentos de 68 foram responsáveis por uma verdadeira revolução cultural através da música, do feminismo, do amor livre, da arquitetura, literatura e as artes de uma forma geral. Também faço parte da primeira geração que estuda e trabalha fora. Meu maior sonho era entrar na faculdade e, quando consegui, vi aquele cemitério, tudo vazio. Foi o maior choque da minha vida. Essa sensação me fez entrar na militância política. Foi um período de criatividade intensa que trouxe ótimos frutos para as gerações atuais. Graças aos questionamentos que fizemos lá, hoje vivemos uma liberdade incrível. Hoje, há outras questões, mas a hipocrisia em relação à família caiu por terra. As mulheres, então, nem se fala – são o maior exemplo. Em 68, havia Cinema Novo, os festivais. Vejam os jovens reunidos em coletivos, movimentos culturais regionais, engajados em causas sociais, buscando seu espaço no mercado de trabalho, no próprio Movimento Estudantil.

Fórum – Vendo essa época a partir de hoje, que tipo de ações o senhor acha que foram equivocadas e quais outras poderiam ser tomadas para enfrentar a ditadura militar?

José Dirceu – Naquela situação, não havia muitas alternativas. Era tudo ou nada porque veio o AI-5 e não dava para fazer movimento de massa. Os caminhos eram muito restritos. O golpe dentro do golpe (o AI-5) foi duríssimo. Fizemos o que era possível, em termos de resistência e muito do que fizemos foi a imposição do momento, não era escolha, não era opção. O Movimento Estudantil é, injustamente, responsabilizado pelo endurecimento da ditadura. Na verdade, basta olhar aquele passado, buscar a verdade para perceber que ele viria de qualquer jeito. Pagamos o preço, fomos às últimas conseqüências, reviramos nossas vidas, mas somos vitoriosos.

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Por Glauco Faria [Quarta-Feira, 28 de Maio de 2008 às 17:39hs].

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“Quem luta, acerta e erra; quem não luta, só erra”

No ano de 1968, o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Franklin Martins, estudava Economia. Mas, como parte dos estudantes à época, participou ativamente dos movimentos que começavam a contestar de forma mais veemente a ditadura militar tanto no plano político como no âmbito daquilo que os generais planejavam para o ensino superior no país.

Ligado à Dissidência, uma organização política com base universitária que havia rompido com o Partido Comunista, Martins assegura que a ação dos estudantes brasileiros não era somente reflexo do que acontecia em outros países. “Esse turbilhão internacional produziu um caldo de cultura propício para o surgimento e o crescimento do movimento estudantil no Brasil. Mas, nem de longe, a luta por aqui foi um reflexo do que se passava lá fora, tanto que as primeiras grandes manifestações no Rio ocorreram em fins de março, bem antes, portanto, do Maio francês ou da Primavera de Praga”, conta em entrevista feita por e-mail à Fórum. Confira abaixo a íntegra.

Fórum – Como o senhor avalia a importância das manifestações estudantis de 1968, dos quais o senhor fez parte?

Franklin Martins – Costumo dizer que a explosão daquele ano foi fruto de quatro casamentos e um divórcio. O primeiro casamento se deu entre os estudantes politizados, que resistiam à ditadura, e a massa dos estudantes, que queria apenas receber uma boa formação acadêmica e profissional. A partir de 1967, entretanto, tornou-se geral a percepção do projeto que a ditadura militar tinha para a universidade: privatização do ensino superior, introdução das mensalidades nas escolas públicas, adoção de currículos ligados às demandas das empresas, diminuição do espaço para a crítica e a pesquisa científica, abolição da autonomia universitária etc. Ou seja, o confronto entre ditadura e estudantes não se dava mais apenas no plano político e fora da universidade, mas também nas questões concretas que afetavam o cotidiano dos alunos dentro das salas de aula. Isso deu corpo e unidade ao movimento.

O segundo casamento aconteceu fora da universidade, entre dois segmentos da classe média: o que havia se oposto ao golpe de 64 e o que o havia apoiado. A luta pelas reformas de base durante o governo João Goulart dividira a classe média. Uma parte dela, minoritária, vira na mudança das estruturas o caminho para a modernização do país e para a diminuição das injustiças sociais. A outra, majoritária, reagira contra a bandeira das reformas e, através de suas lideranças, batera às portas dos quartéis pedindo a deposição do presidente constitucional. A expectativa destes era de que, afastado Jango, as Forças Armadas entregassem aos políticos de direita o comando do país. Não foi o que aconteceu, porém. A ditadura não só esmagou a esquerda, as forças democráticas e as organizações populares, como, em pouco tempo, marginalizou ou relegou a posições decorativas líderes como Carlos Lacerda, Magalhães Pinto e Adhemar de Barros, que haviam apoiado o golpe. Então, essa insatisfação geral da classe média contaminava o ambiente familiar dos estudantes e reforçava suas posições.

O terceiro casamento foi o enlace em escala planetária das diversas lutas estudantis em curso no mundo, em Paris, em Praga, em Tóquio. E o último, o que se deu entre o nosso movimento estudantil e o impulso de renovação dos valores da sociedade, num sentido mais amplo, em todo o mundo: dos costumes, da moral, dos padrões artísticos, dos modos de pensar e de se comportar. As saias subiam, os cabelos cresciam, a pílula se popularizava, os padrões sexuais se transformavam, os modelos tradicionais de casamento e educação familiar entravam em crise.

Por último, o divórcio: a explosão de 68 foi fruto também de uma profunda ruptura entre a juventude e a política tradicional. Respirava-se uma hostilidade generalizada contra os políticos, de direita ou de esquerda, e mais intensa ainda contra as instituições políticas criadas ou toleradas pela ditadura. A atividade política só tinha sentido se voltada para a transformação da sociedade, não à ocupação de cargos ou posições de poder. Todo esse contexto deu fôlego e ampliou o poder de atuação dos movimentos estudantis, que influíram de fato na transformação da sociedade.

Fórum – A organização das manifestações aqui tinha inspiração nos movimentos que ocorreram em Paris?

Martins – É fato que as lutas estudantis no Brasil uniram-se ao furacão que atravessou o mundo naquele ano: maio em Paris, revoltas estudantis na Alemanha, na Itália e na Inglaterra, movimentos contra o racismo e a guerra do Vietnã nos Estados Unidos, protestos de rua em Tóquio. Também o bloco socialista foi abalado com a invasão da Tchecoslováquia, onde o Partido Comunista local tentava conciliar socialismo com liberdade. E a ofensiva do Tet, o ano novo budista, contra as tropas americanas no Vietnã, mostrou que o triunfo do Vietcong era uma questão de tempo.

Esse turbilhão internacional produziu um caldo de cultura propício para o surgimento e o crescimento do movimento estudantil no Brasil. Mas, nem de longe, a luta por aqui foi um reflexo do que se passava lá fora, tanto que as primeiras grandes manifestações no Rio ocorreram em fins de março, bem antes, portanto, do Maio francês ou da Primavera de Praga. Pessoalmente, creio que bem maior, no coração e na mente dos jovens brasileiros, foi o impacto da ofensiva do Tet. A sensação foi de que, se os vietnamitas podiam vencer a mais poderosa máquina de guerra do mundo, por que o povo brasileiro não poderia derrubar a ditadura?

Fórum – Como o senhor vê o legado destes movimentos para os dias de hoje?

Martins – Talvez o maior legado do Movimento Estudantil para o Brasil seja o crescimento do sentimento democrático no país. Os estudantes de 1968 foram derrotados com a decretação do AI-5, mas plantaram sementes que logo dariam frutos. Apesar da brutalidade da repressão e do terrorismo de Estado, já em 1974 a ditadura foi derrotada em toda a linha nas eleições parlamentares. O ímpeto democrático, que tinha sido momentaneamente sufocado, estava renascendo com vigor. Isso obrigou a ditadura terrorista a abrir um processo de distensão “lenta, gradual e segura” – tentando controlar a sua saída de cena. Não conseguiu. As lutas populares ganharam novo impulso nos anos seguintes (greves operárias, imprensa alternativa, entidades religiosas, associações de bairros etc), desembocando na luta pelas eleições diretas em 1984, que jogou a pá de cal no regime militar.

Mas a geração de 68 não lutava apenas por democracia. Lutava também por justiça social, pelo socialismo, pela idéia da igualdade. É sintomático que os anos da ditadura tenham acentuado brutalmente as desigualdades sociais e a concentração de renda no Brasil. E este é um outro legado que o movimento deixou: não por acaso, de lá para cá o País vem perseguindo a redução dessas injustiças, com êxito crescente.

O Movimento Estudantil também deixou um legado de mudanças em hábitos, comportamento, cultura, relações familiares, relações entre casais, sexo, que nos fizeram ser hoje um país menos careta do que era no final dos anos 60. E isso é bom. Além de tudo, 1968 ajudou que nos abríssemos para o mundo e para a novidade. Deixou o país mais antenado e menos provinciano, sem que com isso ele deixasse de valorizar o que é seu. E isso também é bom.

Fórum – Vendo essa época a partir de hoje, que tipo de ações o senhor acha que foram equivocadas e quais outras poderiam ser tomadas para enfrentar a ditadura militar?

Martins – Acho curiosa a preocupação com eventuais ações equivocadas. Porque, no fundo, equivocado era apoiar a ditadura, ou não lutar contra ela e ficar em casa esperando o Carnaval chegar. Quem luta, acerta e erra; quem não luta, só erra. Penso sempre com respeito e carinho nos que lutaram quando era tão difícil lutar. Dou muito pouca importância aos seus erros. Até porque os que lutavam, errando ou acertando, pagaram um preço muito alto por não se conformarem com a repressão e a injustiça: prisão, tortura e muitas vezes assassinato. A geração de 1968 poderá ser acusada de muitos erros, mas dela ninguém poderá tirar o maior de seus méritos: ter se entregado de corpo e alma àquilo que ela achava melhor para o Brasil e para o mundo. Foi bom ter vivido aquele tempo, foi fantástico conviver com tanta gente extraordinária.

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Por Glauco Faria [Segunda-Feira, 26 de Maio de 2008 às 16:11hs].

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Revolução, pílulas e preservativos

Até hoje, não há explicações consensuais para um fenômeno que ocorreu em quase todo o planeta: a rebeldia e as manifestações que marcaram 1968. As barricadas promovidas por jovens franceses transformaram-se em ícones de uma época que pode ser resumida em uma expressão: “é proibido proibir”. E a mídia ainda não globalizada contribuiu para ofuscar outras manifestações ocorridas no Japão, na África, nos Estados Unidos e em quase toda a América Latina.

No Brasil, havia um conjunto de fatores que favorecia a ebulição estudantil: a existência de uma ditadura militar fruto da deposição, pelas armas, do governo legalmente constituído de João Goulart, sem dúvida era a mais marcante. Em decorrência disso, havia sérias restrições às liberdades de expressão, de organização social e política. Os partidos políticos tinham sido cassados assim como as organizações representativas do Movimento Estudantil como a UNE, os DCEs e Centros Acadêmicos. Em seus lugares, a ditadura criou organizações fantoches como os partidos ARENA e seu filhote MDB; e nas escolas criaram-se os DCEs oficiais e DAs, com recursos oficiais, para substituir a representação legítima, livre e democrática. Sem falar da violência sobre o movimento artístico e cultural, e o movimento sindical, um outro capítulo.

No Brasil, 1968 representou uma explosão de rebeldia contra tudo isso. Não havia uma liderança nem unidade ideológica, nem política e nem de representação. Os partidos e organizações políticas corriam atrás de um movimento que foi para as ruas e sensibilizou grande parte da população. A ausência de identidade específica, além da luta contra a ditadura, talvez tenha sido responsável pela aglutinação do apoio dos mais variados setores da sociedade, como comprova famosa passeata dos 100 mil, no Rio de Janeiro. Porém, sem qualquer bairrismo, 1968 foi muito mais forte em São Paulo do que no Rio.

O saldo desse movimento foi a riqueza de uma geração inigualável de artistas, intelectuais e políticos, apesar do desserviço prestado por José Dirceu et caterva em episódios recentes e comprometedores. Esse cidadão, hoje cassado por instituições democraticamente constituídas, terá sua biografia sempre dividida em duas partes: a da sua fase combativa, idealista, baseada em princípios e valores universais de humanismo e solidariedade de nossa generosa geração; e a fase em que o poder pelo poder tomou conta de mentes e corações, dele e de outros, na condução de um governo que tinha tudo para ser revolucionário e transformador, no sentido mais amplo possível. Felizmente, existem os Vladimir, Gabeira e outros para comprovar que José Dirceu foi e é apenas um desvio daquela história.

O começo, se é que existe

Para mim, 1968 começou em 1965, quando entrei para Faculdade de Economia da USP, abandonei o Vale do Paraíba e mudei-me para São Paulo. Sempre trabalhei e estudei. Na capital, fui trabalhar no Moinho da Lapa, uma empresa do Grupo Sadia, como assistente da diretoria, pilotada por Walter Fontana, filho mais velho do fundador do grupo e ex-senador Atílio Fontana. O irmão de Walter, Omar, comandava a Sadia Transportes Aéreos, empresa de aviação que se transformaria na Transbrasil. Foi o período em que minha formação ideológica deu um salto. A Sadia, por exemplo, usava homens e infra-estrutura da chamada 5ª delegacia, como era então conhecido o DOPS de São Paulo. Os investigadores prendiam e torturavam clientes que não honravam seus compromissos com a empresa.
Em 1966, participei ativamente das manifestações estudantis contra o acordo MEC-USAID que ficaram conhecidas como setembradas. Fui preso no largo da Concórdia, em uma dessas manifestações, e solto no terceiro dia graças à intervenção do major Mello da Aeronáutica, que estudava na FEA-USP e do chefe dos investigadores, Humberto Aguiar, que prestava serviços à Sadia através da 5ª Delegacia. A prisão serviu como um trampolim à minha “carreira política” na Faculdade e terminei o ano como secretário geral do Centro Acadêmico Visconde de Cairu. Em 1967, participei dos congressos da UNE, em Valinhos, SP, e da UEE, em Cotia, SP, ambos realizados em conventos de ordens religiosas católicas, da mesma forma que o congresso da UNE realizado em um convento em Belo Horizonte, MG, em 1965.

No ano de 1967, a luta mais importante e muito pouco divulgada foi a ocupação por três dias consecutivos da Assembléia Legislativa de São Paulo por estudantes, para impedir a privatização da USP. O movimento foi vitorioso.

1968 começou agitado

Em março, ocupamos a FEA/USP. Meses antes do maio parisiense e da ocupação da Faculdade de Filosofia, na rua Maria Antônia, em junho. Naquele mês, operários ocupam fábricas em Osasco e buscam apoio na rua Maria Antônia. Em julho, reunião da direção da UNE aprova que o 30º Congresso da UNE seria realizado em São Paulo, clandestino, os delegados seriam eleitos em assembléias convocadas para esse fim, a UEE de São Paulo seria a responsável pela sua montagem e o local não poderia ser um convento de religiosos como nos congressos anteriores porque a repressão poderia localiza-lo com facilidade.

Às vésperas de seu início, eclodiu o episódio que ficou conhecido como a batalha da rua Maria Antônia. O conflito foi resultado de provocações articuladas pelo chamado CCC – Comando de Caça aos Comunistas – que tinha na Universidade Mackenzie sua principal base de operações. Lá se embaralhavam agentes como Raul Careca, um delegado do DEOPS, até capitão Maurício, que no DOI-CODI, no ano seguinte, seria chefe de uma equipe de torturadores. Foram eles que plantaram, no meio dos estudantes da USP, um agente provocador, Brasil de Oliveira, um dos responsáveis pelo começo do confronto. Para nós, não havia o menor interesse em chamar atenção sobre o Movimento Estudantil porque o 30º Congresso da UNE estava agendado para a segunda semana de outubro e estava sendo encaminhado desde agosto em todos os estados do Brasil.

Não foi, portanto, um conflito entre duas universidades até porque nossos aliados detinham o controle das entidades estudantis do Mackenzie, inclusive o DCE. Todos nós vimos e testemunhamos viaturas do Exército Brasileiro descarregando rojões e armas de fogo, sob o comando do capitão Maurício, na entrada lateral do Mackenzie, na rua Itambé. O resultado foi o assassinato do estudante secundarista José Guimarães pelo mackenzista Osni Ricardo, militante do CCC.

A ditadura apertava seu cerco. No início de abril já havia dissolvido a Frente Ampla, um esboço de um movimento de oposição extra-parlamentar que reunia líderes do período pré-64, como Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e João Goulart. Eram figuras que pouco ou nada tinham de comum entre si. Cada qual vestia seu próprio figurino. Lacerda, um dos responsáveis pelo golpe militar, naquele momento encontrava-se aliado a Jango, o presidente legitimamente eleito destituído pelo golpe militar. E Juscelino, como bom mineiro, conseguia manter-se afastado das articulações golpistas ou legalistas. Os militares, portanto conseguiram promover uma aliança até então inconcebível e por isso mesmo intolerável. A radicalização política, portanto, partiu dos militares.

No dia 13 de dezembro, intolerante com o movimento estudantil e as primeiras manifestações de guerrilha urbana, os militares decretaram o Ato Institucional 5 que enterrava a poucas instituições democráticas, como o Habeas Corpus.

Quarenta anos depois

Muitas análises abstraem a força, a intensidade, a velocidade e a dimensão planetária daquele contexto. Portanto, apesar de falhas e desvios, não há do que se arrepender, desde que se entenda o clima daquele ano. Não há dúvida que a inexperiência, o voluntarismo, os excessos decorrentes da pouca idade marcaram nossa atuação. Mas eram os poucos recursos que dispúnhamos para encontrar coragem para enfrentar o aparato repressivo do Estado controlado pelos militares e políticos golpistas.

Hoje, me orgulho de fazer parte dessa geração generosa que perdeu seus melhores quadros na luta contra a ditadura. Ninguém, em sã consciência, poderá negar que as novas gerações usufruem, desde então, o legado desse movimento que são as instituições democráticas cada vez mais fortes capazes de absorver sem traumas um líder operário como presidente democraticamente eleito, no seu segundo mandato. Por mais que não se goste desse presidente, como é o meu caso, não podemos menosprezar a importância desse fato. Falhas e desvios devem ser debitados na conta daqueles que nada fizeram naquele período e mais ainda na daqueles que defenderam a ditadura pelas mais diferentes razões.

Com a paciência adquirida com a idade, estou convencido de que as mudanças excessivamente rápidas podem deixar seqüelas insanáveis. A ditadura cubana é um bom exemplo. A revolução dirigida por Fidel Castro e Che Guevara teve tudo para ser um modelo de socialismo moderno e se perdeu na burocracia e na falta de liberdade. A obsessão do poder pelo poder, que infelizmente contaminou muitos dos que estão ou estiveram no governo, acaba colocando em plano secundário a riqueza da diversidade.

Concluindo, acredito que o fio condutor dos movimentos que marcaram 1968 em todo o planeta foi muito mais a contestação dos jovens contra uma sociedade autoritária do que uma possível alternativa política ideológica de poder. Sem aquele tipo de contestação a ordem das coisas não muda. A repressão aos estudantes, em 1968, no Brasil, deveu-se muito mais à contestação da ordem e dos costumes do que as propostas políticas revolucionárias de pequenas organizações políticas clandestinas.

Exagero? Basta recordar que a exposição que a ditadura montou nos Diários Associados com o material apreendido na invasão do CRUSP – Centro Residencial da Universidade de São Paulo – no mesmo dia em que foi decretado o Ato Institucional 5 – destacava muito mais as pílulas anticoncepcionais e os preservativos ali encontrados. Para a ditadura, aquilo desagregava a família e ameaçava à sociedade. Os livros de guerrilhas e outros materiais políticos ficaram segundo e terceiro plano.

Por Paulo de Tarso Venceslau, 64 anos, economista pela FEA/USP, pós-graduado em sociologia pela Unicamp, sem filiação partidária, hoje diretor de redação Jornal CONTATO, em Taubaté, SP.

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“Queríamos fazer revolução pelo povo e para o povo, não com o povo”

Frei Betto ressalta a importância dos acontecimentos do ano de 1968 no enfrentamento à ditadura, mas aponta a falta de apoio popular como decisiva para a derrota dos movimentos. Confira a entrevista.

Fórum – Em termos de militância política pessoal, o que representou o ano de 1968 para você?

Frei Betto – Ao retroagir meu olhar ao ano de 1968, me pergunto como fui capaz de me envolver com tantas atividades. Estudava filosofia nos dominicanos e antropologia na USP; era chefe de reportagem da Folha da Tarde; atuava como assistente de direção do Teatro Oficina; militava na Ação Libertadora Nacional (ALN), comandada por Carlos Marighella. No jornal, eu monitorava as matérias sobre as manifestações estudantis e a guerrilha urbana, dando destaque a tudo que desgastasse a imagem da ditadura e ressaltasse a resistência ao regime militar. Portanto, de 1968, ao passar dos 23 aos 24 anos, guardo a lembrança de um dos mais intensos períodos de minha vida, acalentado pela vitória dos vietnamitas sobre os estadunidenses e a revolução musical promovida, no Brasil, pelo tropicalismo; e, no exterior, pelos Beatles.

Fórum – Como você avalia a importância das manifestações estudantis daquele ano?

Betto – Elas foram fundamentais para questionar a ditadura que, acuada, se viu obrigada a colocar nas ruas as Forças Armadas, o que induziu parte do movimento estudantil à luta armada. Essa conjuntura engendrou o AI-5, o golpe dentro do golpe militar, endurecendo o regime.

Fórum – Qual o legado destes movimentos para os dias de hoje?

Betto – O maior legado é a capacidade de mobilização do movimento estudantil, como recentemente se viu na Universidade de Brasília, com a deposição do reitor e do vice-reitor. Pena que, hoje, os fatores de desmobilização sejam mais fortes que os de mobilização. Mas ficou a certeza de que é na juventude que nos impregnamos de valores éticos, revolucionários, solidários, na busca de um “outro mundo (e Brasil) possível”.

Fórum – Vendo essa época a partir de hoje, que tipo de ações você acha que foram equivocadas e quais outras poderiam ser tomadas para enfrentar a ditadura militar?

Betto – Nosso maior equívoco foi não saber fazer trabalho político junto aos mais pobres. Queríamos fazer revolução pelo povo e para o povo, não com o povo. Era elitista nossa forma de luta. Tínhamos quase tudo: coragem (muitos morreram torturados ou baleados, deram a vida por aqueles ideais); dinheiro (das expropriações bancárias); armas (tomadas de policiais e militares); ideologia. Mas nos faltou o essencial: apoio popular.

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Por Glauco Faria [Terça-Feira, 20 de Maio de 2008 às 16:50hs].

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